ESPAÇO MAQUINARIA

De acordo com Marx, a noção de território estaria dada em sua declaração, “[...] o que faz com que uma região da terra seja um território de caça é o fato das tribos caçarem nela [...].” Com isso, o autor aponta a condição de suporte da vida material de um dado grupo social que se apropria e usa uma parte do espaço geográfico, em um período historicamente datado... Para o autor, o território pode apresentar uma certa fixidez ou mobilidade dependendo do uso que os grupos sociais fazem dele, o que é determinado pela forma de organização social, política e econômica desses grupos sociais. Mas isso não implica qualquer tipo de afeição pelo substrato material, mas tão-somente, a apropriação das possibilidades materiais de reprodução da vida.

 

(“Ressignificando o conceito de território”, Cristóvão Brito)

 

      Em Outubro de 2014, o Teatro de Narradores e mais 21 grupos teatrais na cidade de São Paulo foram declarados “patrimônio cultural imaterial”. Evidentemente, trata-se de um momento de uma luta bastante ampla e complexa, não apenas pelo reconhecimento desses espaços. Antes, essa situação coloca-nos uma questão decisiva: o que significa produzir um espaço, já que dele só podemos falar a partir de sua materialidade, mas, ainda mais, e sobretudo, a partir das relações que ele é capaz de estabelecer?

         O Teatro de Narradores sempre inscreveu seu trabalho em espaços onde suas atividades pudessem ocorrer de maneira continuada. Desde os tempos do teatro universitário, o Espaço Maquinaria é a quarta “sede”. Cada uma dessas experiências acabou por determinar rumos do trabalho artístico. Ocorre que o Espaço Maquinaria é a primeira sede alugada do grupo. Antes, ou tínhamos a cessão provisória de um Espaço na forma de um apoio (Centro Cultural Elenko/KVA, de 1998 a 2002), ou a residência artística num espaço público (Teatro Martins Pena, a partir de nosso primeiro projeto contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao teatro para a Cidade de São Paulo, 2003-2004), ou uma parceria com caráter político de associação (a Casa do Politécnico/CadoPo, do Grêmio Politécnico da USP, 2004-2006).

        O fato é que estamos no prédio da rua 13 de Maio, no Bixiga, desde 2007. Trata-se de um edifício com um histórico, antes de nós, incontornável para o teatro em São Paulo: foi sede da Cooperativa Paulista de Teatro, abrigou a sede do diretor Leo Lama por um tempo, e foi durante dez anos sede do Estúdio Nova Dança e suas Companhias. Hoje abriga nossa sede, o Espaço Maquinaria,  no segundo andar – e também a do Teatro da Vertigem, no primeiro.

        Nossa perspectiva, em cada uma dessas... “residências” sempre foi a de uma dupla integração: de nossas criações com o espaço, mas também a de outros artistas na relação com esse espaço. Isso definiu não apenas o perfil das sedes, mas a partir de 2007 acabou por determinar o teor de sua continuidade, uma vez que a pergunta sobre a manutenção se tornou efetivamente também uma pergunta econômica.

      A opção por alugar um espaço, cujo contrato “herdamos” do Estúdio Nova Dança, se deu como tentativa de instaurar condições menos contingentes de trabalho. O aluguel coloca uma série de problemas, mas imaginávamos que estaríamos menos sujeitos às mudanças de gestão, fosse privada, fosse pública, como estivemos até então. O que, em parte, tem sido uma verdade, pois estamos aqui já há oito anos. Mas também imaginávamos produzir formas alternativas de manutenção, fosse a partir  da associação com outros coletivos, fosse a partir da relação diversa com o público.

        Esboçando uma resposta à pergunta inicialmente proposta, para nós o Espaço se define como um “espaço de produção”, entendido num movimento complexo que se quer instaurar, de maneira programática, segundo uma ideia brechtiana de produção: o esforço por diminuir, na prática, precisamente a distância entre produção e consumo, buscando formas de  inscrever essa esfera pressuposta do consumo (espectador, receptor) no processo de produção de sentido. Esforço que no nosso caso não se reduz à gratuidade das ações, embora a pressuponha, nem mesmo um ímpeto participativo: mas uma interrogação sobre formas de produção. Produzir o espaço é produzir relações; rever o seu funcionamento não é outra coisa que reinventar essas relações.